Há um certo prazer estético em observar a engenharia da desonestidade quando ela é feita com competência. Não estou falando de arte, estou falando de vinte e cinco mil contas fraudulentas criadas ao longo de quarenta e quatro dias, entre 22 de abril e 5 de junho de 2026, para produzir vinte e oito milhões e oitocentas mil interações com um único modelo de inteligência artificial. A Anthropic acusou o Alibaba, por meio de sua divisão de pesquisa Qwen, de conduzir aquilo que classificou como o maior ataque de destilação já registrado contra seus sistemas, segundo carta enviada ao Senado americano e reportada por diversos veículos, entre eles a Exame e o Tecnoblog. O alvo não era qualquer capacidade do modelo. Era exatamente o que há de mais raro nele: raciocínio de agente, engenharia de software autônoma e execução de tarefas de longo prazo. Ou seja, tentaram copiar não o que o modelo sabe, mas o que o modelo faz quando ninguém está olhando por cima do ombro dele.
Confesso que fiquei fascinado por um detalhe que a maioria das reportagens tratou como rodapé técnico. A destilação, no sentido em que a indústria de IA a pratica há anos, é perfeitamente legítima quando feita com consentimento e transparência. Um modelo menor aprende observando as respostas de um modelo maior, como um aprendiz observando um mestre em silêncio, absorvendo padrões sem nunca perguntar o motivo. O problema começa quando o aprendiz decide que não precisa mais pedir licença para observar, e passa a se disfarçar de vinte e cinco mil pessoas diferentes para não ser notado. Aí o que era pedagogia vira espionagem industrial em escala, como bem descreveu a reportagem do IT Forum ao relatar que operações semelhantes, atribuídas a DeepSeek, Moonshot AI e MiniMax, já haviam sido denunciadas em fevereiro do mesmo ano, somando outras dezenas de milhões de consultas.
E aqui está o ponto que quero que você sinta antes de simplesmente concordar com ele por educação. Se é possível copiar, em escala industrial, o raciocínio mais sofisticado que a humanidade já produziu artificialmente, o que exatamente ainda separa uma organização de sucesso de uma organização medíocre que apenas finge ter processos, cultura e governança? Se a inteligência pode ser destilada, clonada, empacotada e revendida por uma fração do custo original, talvez devêssemos parar de nos gabar tanto da nossa inteligência corporativa e começar a nos perguntar, com mais desconforto do que costumamos permitir em uma sala de diretoria, o que realmente não pode ser copiado.
Eu tenho uma resposta, e ela vai incomodar quem prefere PowerPoint a espelho.
O que não se copia é o comprometimento. Não o comprometimento performático que aparece em valores institucionais emoldurados na recepção, mas aquele que ninguém vê, que acontece às vinte e três horas de uma sexta-feira quando o sistema cai e alguém decide, sem que ninguém tenha pedido, ficar mais uma hora resolvendo o problema porque aquilo importa de verdade. Não se destila garra. Garra não é um padrão estatístico recorrente em um conjunto de dados, é uma decisão renovada todos os dias, geralmente sem testemunhas e quase sempre sem aplausos. E não se clona dedicação, porque dedicação não é performance de output, é a disposição de continuar entregando qualidade quando ninguém está medindo, quando o KPI não está olhando, quando a auditoria ainda não chegou.
Curiosamente, é exatamente esse o ponto cego de boa parte da liderança executiva brasileira quando o assunto é inteligência artificial. Vejo, com uma regularidade que já deixou de me surpreender e passou a me divertir, executivos tratando a adoção de IA como um ritual de modernização suficiente em si mesmo, como se comprar uma licença de determinada ferramenta equivalesse a ter governança. Não equivale. Aliás, essa confusão é irmã gêmea da confusão que o próprio ataque de destilação expõe. Assim como o Alibaba tentou capturar a aparência das capacidades do Claude sem construir, do zero, a arquitetura de responsabilidade, segurança e disciplina de engenharia que sustenta aquele modelo, muitas organizações tentam capturar a aparência de inovação sem construir a espinha dorsal de governança que a sustentaria de fato. Compram o efeito e ignoram a causa. E depois se perguntam, com genuína perplexidade, por que o efeito desaparece na primeira crise.
Governança, para quem ainda insiste em tratá-la como capítulo de manual de compliance, não é papel assinado nem comitê que se reúne para validar decisões já tomadas em corredores. Governança é a disciplina de garantir que o poder de decidir esteja sempre acompanhado da responsabilidade de responder pelas consequências dessa decisão. É isso que nenhuma inteligência artificial, por mais avançada que seja, pode assumir sozinha em nome de uma organização. Um modelo pode sugerir, simular, prever e até redigir com fluência superior à de muitos executivos que conheço. O que ele não pode fazer é responder, no sentido mais primitivo da palavra, por aquilo que a organização decide. Essa é a fronteira que separa complemento de substituição, e é justamente aí que mora o erro estratégico mais caro que venho observando em conselhos de administração: tratar a inteligência artificial como se fosse um substituto do julgamento humano, quando na verdade ela só entrega valor real quando opera como extensão de um julgamento humano que já é sólido.
Vale a pena parar um segundo aqui, porque este é o tipo de frase que soa bonita em um slide e morre na prática se não for desdobrada. A IA como complemento significa que ela amplia a velocidade, a escala e a precisão de decisões cujo critério ético, estratégico e humano já foi definido por pessoas que assumem, com nome e sobrenome, a responsabilidade por esse critério. A IA como substituto, por outro lado, é a tentativa de terceirizar não apenas a execução, mas o próprio julgamento, e é aí que mora o desastre silencioso que várias organizações só descobrem quando já é tarde, geralmente durante uma auditoria, uma crise regulatória ou, como no episódio que abriu este texto, uma disputa geopolítica que expõe a fragilidade do que parecia sólido.
A propósito, há algo profundamente irônico no fato de que a própria Anthropic, ao denunciar o Alibaba, tenha recorrido a argumentos de soberania tecnológica e proteção de propriedade intelectual perante o Senado americano, exatamente na mesma semana em que o governo dos Estados Unidos impôs restrições de exportação sobre os modelos mais avançados da própria empresa, alegando preocupações de segurança nacional, conforme noticiado pela TweakTown. Ou seja, a mesma companhia que exige proteção contra cópia não autorizada de sua tecnologia se viu, dias depois, impedida por seu próprio governo de compartilhar essa tecnologia livremente até com aliados. Isso não invalida a denúncia contra o Alibaba, mas revela algo mais interessante do que a denúncia em si: no jogo geopolítico da inteligência artificial, ninguém está isento de ser, simultaneamente, vítima e instrumento de controle. E se isso é verdade em escala de superpotências, imagine a ingenuidade de acreditar que, em escala corporativa, adotar IA sem governança sólida é uma decisão neutra e sem custos ocultos.
Deixe-me ser ainda mais direto, correndo o risco de soar deselegante para quem prefere discursos motivacionais sem atrito. A maior parte das empresas brasileiras que hoje se orgulham de terem implementado inteligência artificial não implementou absolutamente nada além de uma interface de chat conectada a processos que já eram frágeis antes da tecnologia chegar. A IA, nesses casos, não corrige a falta de governança, ela apenas acelera a velocidade com que a falta de governança produz consequências. É como dar um carro esportivo a um motorista sem noção de direção defensiva. O problema não é o carro, é a ausência completa de critério sobre quando frear.
E aqui volto ao episódio da destilação, porque ele carrega uma lição adicional que poucos comentaristas exploraram. A Anthropic afirmou, segundo a reportagem da ConvergênciaDigital, que a operação atribuída ao Alibaba seguiu padrões muito semelhantes a campanhas anteriores de outros laboratórios chineses, sugerindo não um incidente isolado, mas uma prática sistemática e recorrente. Isso significa que a vulnerabilidade não estava em um único ponto de falha, mas em um padrão estrutural de exposição que se repetia. Trocando em miúdos, o problema não era o ataque, era a arquitetura que permitia ataques recorrentes do mesmo tipo terem sucesso repetidas vezes antes de serem finalmente identificados e nomeados. Isso deveria soar familiar a qualquer executivo que já viveu o ciclo clássico de detectar um problema recorrente, tratar o sintoma pontualmente, e assistir ao mesmo problema reaparecer meses depois com um nome novo e a mesma raiz.
Governança de verdade não trata sintomas. Governança de verdade audita raízes. E raiz, nesse contexto, é sempre uma combinação de três elementos que nenhuma tecnologia substitui: critério humano sobre o que é aceitável, responsabilidade humana sobre quem responde quando algo falha, e compromisso humano sustentado para continuar corrigindo o rumo mesmo quando ninguém está aplaudindo o esforço. A tecnologia mais sofisticada do mundo, incluindo os modelos de raciocínio agêntico que o Alibaba tentou copiar, existe para amplificar esses três elementos, jamais para substituí-los. Quando uma organização inverte essa lógica, e passa a esperar que a IA compense a ausência de critério, responsabilidade e compromisso, ela não está inovando, está apenas automatizando sua própria negligência com mais eficiência do que conseguiria manualmente.
Talvez seja hora de reformular a pergunta que a maioria dos comitês executivos está fazendo de forma equivocada. A pergunta certa não é como usar inteligência artificial para acelerar resultados. A pergunta certa é o que, dentro da nossa organização, é tão essencialmente humano que nenhuma quantidade de dados de treinamento, por mais volumosos que sejam, conseguiria replicar. Se a resposta for vazia, se a organização não conseguir nomear com precisão aquilo que a diferencia além de processos automatizáveis, então ela já está, mesmo sem perceber, na fila de espera para ser destilada por alguém disposto a copiar sua aparência de sucesso sem pagar pelo custo de construí-lo genuinamente. E isso vale para empresas de tecnologia tanto quanto vale para escritórios de advocacia, escolas, hospitais e qualquer organização que ainda acredite que reputação é sinônimo de substância.
Fecho com um convite pouco confortável, proposital assim. Da próxima vez que alguém no seu conselho sugerir que a solução para os desafios estratégicos da organização é simplesmente adotar mais inteligência artificial, pergunte de volta, com toda a educação possível e nenhuma complacência, qual é exatamente o critério humano que essa inteligência está amplificando. Se a resposta demorar mais de dez segundos para vir, ou se vier na forma de um jargão vazio sobre inovação e transformação digital, você acabou de encontrar, sem precisar de vinte e cinco mil contas falsas nem quarenta e quatro dias de operação coordenada, exatamente onde mora a fragilidade estrutural da sua própria organização. E ao contrário do Alibaba, você não vai precisar de um Senado estrangeiro para expor isso. Vai bastar o tempo, que continua sendo, apesar de todos os avanços tecnológicos, o único auditor que jamais aceita suborno.
Referências
Anthropic acusa Alibaba de roubar dados do Claude, Tecnoblog https://tecnoblog.net/noticias/anthropic-acusa-alibaba-de-roubar-dados-do-claude/
Anthropic acusa Alibaba de usar contas falsas para extrair dados da Claude AI, Exame https://exame.com/inteligencia-artificial/anthropic-acusa-alibaba-de-usar-contas-falsas-para-extrair-dados-da-claude-ai/
Anthropic acusa Alibaba de extrair ilegalmente capacidades do Claude em suposto ataque de IA, IT Forum https://itforum.com.br/noticias/anthropic-acusa-alibaba/
Guerra das IAs, Anthropic acusa chinesa Alibaba de criar contas fraudulentas para roubar dados do Claude, ConvergênciaDigital https://convergenciadigital.com.br/mercado/guerra-das-ias-anthropic-acusa-chinesa-alibaba-de-criar-24-mil-contas-fraudulentas-para-roubar-dados-do-claude/
Anthropic says Alibaba used 25,000 fake accounts to query Claude 28.8 million times and train Qwen off the results, TweakTown https://www.tweaktown.com/news/112361/anthropic-says-alibaba-used-25000-fake-accounts-to-query-claude-28-8-million-times-and-train-qwen-off-the-results/index.html
Ações da Alibaba caem após acusações de raspagem de IA pela Anthropic, Investing.com https://br.investing.com/news/stock-market-news/acoes-da-alibaba-caem-apos-acusacoes-de-raspagem-de-ia-pela-anthropic-1983200
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