Em 1971, um francês quieto chamado Pierre Wack fazia algo que ninguém em Londres levava a sério: contava histórias sobre o futuro do petróleo para executivos que não queriam ouvi-las. Sua equipe na Shell havia identificado que nações da OPEP ganhavam confiança, que a Líbia já provara que um único produtor podia restringir a oferta para elevar preços, e que os Estados Unidos se tornavam, pela primeira vez, importadores líquidos de petróleo. Wack não previu o futuro — ele construiu cenários. Quando a crise de 1973 finalmente chegou, a Shell saltou da sétima para a terceira posição entre as petrolíferas globais, enquanto rivais, presas a uma única aposta, foram atropeladas pela realidade.
Mais de cinquenta anos depois, Marina fecha o notebook às 23h47 num escritório em Brasília. Sua rede de varejo fatura R$ 200 mil por mês, e uma decisão a espreita há semanas: investir R$ 500 mil numa nova unidade, ou segurar o caixa mais um ano. Os números giram na cabeça dela como um carrossel sem freio.
Ela abre um prompt e escreve o problema com todos os detalhes que consegue reunir — orçamento, faturamento, custos fixos, praça. Pede três cenários: crescimento de 20%, estabilidade, queda de 15% nas vendas. A resposta chega organizada, quase didática — hipóteses lado a lado, riscos nomeados, perguntas que ela não tinha pensado em fazer. É o mesmo exercício mental que Wack fazia com régua e intuição; agora cabe numa tela, em segundos.
Mas Marina sabe — porque já testou e já errou — que ali termina apenas a primeira camada. Uma simulação de linguagem pode interpretar dados incorretamente, ignorar variáveis relevantes ou produzir estimativas sem fundamento suficiente. Ela muda uma variável de cada vez: "e se os juros ficarem altos por dois anos?" A resposta se reconfigura, mas a decisão continua sendo dela — e o risco de decidir sozinha, com uma ferramenta genérica conversando consigo mesma, ainda a incomoda.
Foi numa conversa de corredor, meses antes, que um colega mencionou algo diferente: não um chatbot avulso, mas um ecossistema pensado para transformar essas simulações em governança de verdade — dados, processos e estratégia amarrados num só lugar, feito por quem passou décadas dentro de operações que não podiam errar. Ela não lembra o nome exato. Só lembra de ter anotado: Omni8.
Marina não decidiu naquela noite. Mas fechou o notebook sabendo de uma coisa que Pierre Wack sabia em 1971: a incerteza não se vence com uma previsão certeira. Vence-se abrindo mais de uma janela para o mundo — e escolhendo, com lucidez, qual caminho atravessar.
Referências:
- EXAME — A IA na tomada de decisão sob incerteza: simulando cenários econômicos e mercadológicos (17/08/2026): https://exame.com/inteligencia-artificial/a-ia-na-tomada-de-decisao-sob-incerteza-simulando-cenarios-economicos-e-mercadologicos/
- CXO Scenario Planner — How Shell Used Scenario Planning to Survive the Oil Crisis: https://cxoscenarioplanner.com/blog/how-shell-used-scenario-planning
- LinkedIn Pulse (Paulo César) — A ascensão da Shell no top 3 global e a área de Estudos do Futuro: https://pt.linkedin.com/pulse/ascens%C3%A3o-da-shell-top-3-global-%C3%A1rea-de-estudos-do-e-paulo-c%C3%A9sar
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