O roteiro de qualquer revolução tecnológica no Brasil é sempre o mesmo. O primeiro passo é a publicação de um número expressivo em releases para a imprensa. O segundo passo, quase sempre negligenciado, é explicar ao leitor comum do que exatamente se está falando, porque entusiasmo sem definição é só ruído bonito. Então comecemos pelo básico, sem pudor didático: tokenizar um ativo é transformar a propriedade de algo que existe no mundo real, um recebível, um imóvel, uma debênture, um crédito de carbono, em um registro digital numa rede blockchain, negociável, rastreável e divisível em frações menores do que o original jamais permitiria. Em vez de um contrato preso a um cartório e a um processo lento de cessão, o ativo passa a existir como um token, transferível com a mesma agilidade de uma transferência bancária, só que com histórico completo e auditável de quem o possuiu antes. Feita a apresentação, voltemos ao roteiro nacional.

Depois do número expressivo em releases vem o brinde em evento de fintech. Só bem mais tarde, quase sempre tarde demais, alguém pergunta: e a governança disso, onde está?

Pois bem. O número da vez é R$ 4,84 bilhões. Foi o que o mercado brasileiro de tokenização de ativos reais movimentou em emissões no primeiro semestre de 2026, um salto de mais de 122% sobre o mesmo período do ano anterior, quando o setor somava R$ 2,17 bilhões. As captações efetivas, ou seja, o dinheiro que de fato trocou de mãos e não apenas o volume anunciado, quase dobraram: de R$ 1,60 bilhão para R$ 3 bilhões, um avanço de 87,5% (RWA Monitor, via Cointelegraph Brasil, link). Poucas semanas depois, novos levantamentos do próprio RWA Monitor já apontavam R$ 6,87 bilhões emitidos ao longo do ano até julho, sobre uma base histórica acumulada de R$ 13,55 bilhões desde 2012 (Finsiders Brasil, link). O mercado, enfim, saiu do armário.

Até aqui, a narrativa que qualquer um consegue escrever sozinho, com a ajuda de um bom mecanismo de busca e um adjetivo entusiasmado. O Brasil vira, mais uma vez, referência em inovação financeira. Aplaudam-se os fundadores, elogiem-se as fintechs, tirem-se fotos no Web Summit. E aqui, exatamente aqui, é onde a maioria dos textos sobre o tema para, satisfeita consigo mesma. Eu prefiro começar dali para frente.

A euforia dos números e o silêncio constrangedor das regras

Convido o leitor a fazer uma pergunta desconfortável, do tipo que estraga qualquer coquetel corporativo: sob qual norma específica opera esse mercado de quase cinco bilhões de reais? A resposta, cuidadosamente evitada nos comunicados triunfalistas, é que não existe uma. A Comissão de Valores Mobiliários ainda não editou regulamentação própria para tokenização. O tema hoje é tratado por pareceres de orientação, ofícios circulares e pela aplicação, mais ou menos improvisada, da legislação já existente para valores mobiliários (Finsiders Brasil, link).

Há poucas semanas a própria CVM criou um Grupo de Trabalho de Tokenização, reunindo representantes de catorze áreas internas, com o mandato de apresentar em sessenta dias uma proposta de regime regulatório experimental (Brasil em Folhas, link). Ou seja: o regulador está correndo atrás de um mercado que já correu. Isso não é necessariamente um escândalo, mercados nascem antes das regras com uma frequência quase entediante ao longo da história econômica. O escândalo, se houver algum, está em comemorar o crescimento sem jamais mencionar essa lacuna. É a versão financeira de comemorar a velocidade do carro sem perguntar se ele tem freio.

E não é só a CVM que está patinando atrás da própria sombra regulatória. O Banco Central, via projeto Drex, também redesenhou a rota no meio do caminho: abandonou a infraestrutura original em Hyperledger Besu e passou a mirar um problema mais prosaico e mais brasileiro, a reconciliação de gravames em garantias de crédito, revelada no LIFT Day de março em Brasília (DeFin Insights, link). Trocando em miúdos, nem o próprio Estado sabia exatamente qual problema estava resolvendo quando começou a resolver.

Registro isso não para fazer média com o pessimismo fácil de quem acha bonito duvidar de tudo. Registro porque é justamente aqui, na distância entre o entusiasmo do mercado e a maturidade da sua espinha dorsal regulatória, que mora o verdadeiro tema deste texto. Não é tokenização. É governança.

Quando a estrutura chega antes do escândalo, e não depois

Vale reparar em um detalhe que os releases mencionam de passagem e que, para quem vive de estrutura, é o dado mais interessante de todo o semestre. As ofertas amparadas pela Resolução CVM 160, voltada a operações de maior porte e perfil institucional, saltaram 129,4% e passaram a liderar o mercado, somando R$ 3,10 bilhões em emissões e R$ 2,31 bilhões em captações efetivas. O número de projetos enquadrados nesse regime saltou de seis para vinte e seis em um ano (Mundo Coop, link). Ao mesmo tempo, operações sob a Resolução CVM 88, voltada ao varejo, tiveram emissões um pouco menores mas captações que dispararam 308,5%, evidenciando conversão comercial mais eficiente e não apenas volume inflado (Cointelegraph Brasil, link).

Traduzo para quem prefere pensar em português corporativo direto: o dinheiro sério migrou para onde havia processo, rastreabilidade e algum tipo de disciplina operacional, mesmo dentro de um vácuo regulatório amplo. Não foi o hype que puxou o capital institucional. Foi a estrutura, ainda que imperfeita, disponível dentro do próprio ecossistema. Enquanto isso, plataformas de varejo como o Mercado Bitcoin consolidaram liderança setorial distribuindo R$ 284 milhões só no primeiro trimestre, 76% de todo o segmento de varejo regulado pela CVM 88 (Livecoins, link), justamente por ter processos de compliance mais maduros que a média do setor.

Executivos do Morgan Stanley já falam abertamente no fim do horário bancário como consequência natural da tokenização (InvestNews, link), e um estudo da Ripple em parceria com o Boston Consulting Group projeta um mercado global de ativos tokenizados de até US$ 9,4 trilhões até 2030 (Livecoins, link). São projeções grandiosas o suficiente para acender qualquer apresentação de conselho. Mas projeção de mercado não é substituto de arquitetura de controle. Uma coisa é o tamanho do bolo. Outra, bem diferente, é saber quem vai cortar as fatias sem que a faca escorregue.

O paralelo que ninguém quer fazer em público

Aqui entra a inteligência artificial na conversa, e peço licença para fazer o desvio que a maioria evita por comodidade. A tokenização de ativos e a adoção corporativa de IA compartilham exatamente o mesmo defeito de fabricação no Brasil: as duas avançam pela euforia do resultado imediato e só depois, quando o problema já aconteceu, alguém lembra de perguntar sobre trilha de auditoria, responsabilidade e limites operacionais.

Empresas adotam modelos de linguagem em processos críticos com o mesmo entusiasmo que emissores tokenizam recebíveis sem framework de custódia definido: primeiro a euforia do resultado, depois, se sobrar tempo, a arquitetura de controle. A IA, como a tokenização, não é o problema. O problema é tratar ambas como aceleradores de resultado quando na verdade são, antes de qualquer coisa, multiplicadores de risco não gerido. Um multiplicador amplia o que já existe. Se a base é sólida, amplifica solidez. Se a base é frouxa, amplifica frouxidão, só que na velocidade da rede e não mais na velocidade do papel.

É por isso que insisto, até cansar quem me segue, que inteligência artificial não substitui governança, não substitui comprometimento humano com processo, não substitui a garra de quem constrói controle interno enquanto o concorrente só está construindo velocidade. A IA é complemento. Um complemento poderoso, capaz de rastrear, monitorar, sinalizar anomalias em tempo real e devolver ao gestor humano a capacidade de decisão informada que a escala do mercado tokenizado exige. Mas complemento pressupõe algo a complementar. E o que falta complementar, no caso brasileiro, é exatamente a espinha dorsal de governança que ainda está sendo desenhada por um grupo de trabalho com prazo de sessenta dias para entregar um regime experimental.

O que a governança de fato entrega, e o que o costume nunca entregou

Façamos as contas de um jeito que a maioria evita fazer em público. O costume de mercado, aquele modelo de operar primeiro e regularizar depois, entregou 122% de crescimento em emissões e um vácuo normativo que a própria CVM reconhece precisar preencher às pressas. Entregou também assimetria: enquanto operações sob CVM 160, mais estruturadas e com exigências de governança mais próximas do mercado tradicional, atraíram capital institucional pesado, uma fatia relevante do ecossistema segue operando sob pareceres e ofícios, sujeita a interpretação, a discricionariedade e, cedo ou tarde, a algum episódio de perda que vai virar manchete e alimentar exatamente o ceticismo que hoje os entusiastas do setor tanto temem.

A governança orquestrada, a que trata tecnologia como instrumento subordinado a método e não como método em si, entrega outra coisa. Entrega rastreabilidade desde a origem do ativo até a liquidação final, o que reduz o custo de capital porque reduz a percepção de risco do investidor institucional, exatamente o movimento que já se observa na migração de capital para a CVM 160. Entrega auditabilidade contínua, o que antecipa problema em vez de apenas registrar o problema depois que ele já destruiu valor. Entrega, sobretudo, uma cultura organizacional em que comprometimento não é discurso de treinamento de integração, é prática cotidiana testada por processo, por dedicação de quem sustenta controle mesmo quando ninguém está olhando, e por uma dose de obstinação que nenhuma ferramenta, por mais sofisticada que seja, consegue automatizar sozinha.

Convido o leitor cético, e espero que existam vários lendo isto, a projetar o cenário contrafactual. Se o mercado brasileiro de tokenização tivesse nascido sob um arcabouço de governança consolidado desde o primeiro real emitido, e não estivesse correndo atrás dele agora, o crescimento de 122% teria vindo acompanhado de outra métrica, silenciosa mas decisiva: a taxa de sinistralidade, de fraude, de disputa contratual por ativo mal descrito ou mal custodiado. Essa métrica hoje ninguém divulga porque, felizmente, ainda não estourou em escala visível. Mas ausência de crise não é o mesmo que presença de controle. É, na melhor das hipóteses, sorte estatística. E sorte estatística não é modelo de negócio, é apenas o tempo emprestado antes da conta chegar.

O convite que este texto realmente faz

Não escrevo isto para desanimar quem construiu, com esforço genuíno, um dos setores mais promissores da economia digital brasileira. Escrevo justamente pelo oposto: porque acredito que esse setor merece mais do que aplauso automático de quem só lê o primeiro parágrafo do release. Merece ser questionado com o rigor que qualquer ativo de quase cinco bilhões de reais deveria exigir de qualquer investidor minimamente sério.

A pergunta que fica, e que convido cada leitor a levar para a próxima reunião de conselho ou para a próxima conversa de corredor, é simples de formular e desconfortável de responder: sua organização está tokenizando, automatizando, acelerando com inteligência artificial, e construindo estrutura de governança na mesma velocidade em que multiplica exposição? Ou está, como boa parte do mercado brasileiro em 2026, apostando que o regulador, o auditor e a sorte vão continuar chegando um pouco atrasados, mas sempre a tempo?

Prefiro apostar em quem constrói a estrutura antes de precisar dela. O resto, cedo ou tarde, sempre paga a conta que a euforia do primeiro semestre esqueceu de provisionar.



Fontes e referências

RWA Monitor, dados consolidados via Cointelegraph Brasil, Mercado de tokenização cresce 122% e atinge R$ 4,84 bilhões no Brasil no 1º semestre de 2026: https://cointelegraph.com.br/news/tokenization-market-grows-122-in-brazil

Mundo Coop, Tokenização no Brasil alcança R$ 4,84 bilhões no 1º semestre de 2026: https://mundocoop.com.br/economia-negocios/tokenizacao-no-brasil-alcanca-r-484-bilhoes-no-1o-semestre-de-2026/

InvestNews, Brasileiros mais que dobram compras de stablecoins no exterior, mostra BC: https://investnews.com.br/investimentos/compras-de-stablecoins-no-exterior-mais-que-dobram-no-brasil-mostra-bc/

Cointelegraph Brasil, Brasileiros já compraram US$ 14,68 bilhões em criptomoedas em 2026: https://cointelegraph.com.br/news/brazilians-have-already-purchased-us-1468-billion-in-cryptocurrencies

Livecoins, Mercado Bitcoin lidera tokenização no Brasil com R$ 284 milhões em ativos no primeiro trimestre: https://livecoins.com.br/mercado-bitcoin-lidera-tokenizacao-no-brasil-com-r-284-milhoes-em-ativos-no-primeiro-trimestre/

Finsiders Brasil, Tokenização muda de patamar e ganha escala institucional: https://finsidersbrasil.com.br/noticias-sobre-fintechs/tokenizacao-ganha-forca-no-mercado-financeiro-brasileiro/

Brasil em Folhas, CVM acelera agenda de tokenização com novo grupo de trabalho: https://www.brasilemfolhas.com.br/2026/07/cvm-acelera-agenda-de-tokenizacao-com-novo-grupo-de-trabalho/

DeFin Insights, DREX e tokenização, o que o piloto do Banco Central sinaliza para crédito em 2026: https://defin.global/artigos/drex-e-tokenizacao-o-que-o-piloto-do-banco-central-sinaliza-para-credito-em-2026