Há um certo conforto nacional em terceirizar a culpa para Washington. Convenhamos: é mais fácil culpar uma caneta em Washington do que admitir que a caneta aqui dentro, há anos, assinava planos de contingência que nunca saíam da gaveta. Desde 15 de julho de 2026, os Estados Unidos aplicam uma tarifa adicional de 25% sobre importações brasileiras, somada a uma sobretaxa de 12,5% anunciada oito dias depois, sob a alegação de práticas trabalhistas consideradas irregulares pelo escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos. Ambas as medidas, amparadas pela Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, entraram em vigor em 24 de julho, elevando para 37,5% a alíquota efetiva sobre uma extensa lista de produtos manufaturados brasileiros (Tax Group, 2026, disponível em https://www.taxgroup.com.br/intelligence/tarifaco-de-trump-o-que-esta-em-jogo-entre-brasil-e-eua/).

Chamam isso de duplo tarifaço. Eu chamaria de espelho. E espelhos, como se sabe, raramente mentem, ainda que muitos prefiram destruir espelhos a encarar reflexos.

Vale relembrar a origem desse enredo, porque a memória curta é um dos ativos mais valiosos da diplomacia contemporânea. Em abril de 2025, o Brasil figurava entre os países menos tarifados pelos Estados Unidos, com alíquota de apenas 10%. Em julho daquele ano, uma carta do presidente Donald Trump ao presidente Lula elevou essa taxa para 50%, motivada, segundo o próprio Itamaraty, por razões explicitamente políticas ligadas ao processo judicial contra o ex presidente Jair Bolsonaro (CartaCapital, 2026, disponível em https://www.cartacapital.com.br/economia/leia-na-integra-a-resposta-do-itamaraty-ao-novo-tarifaco-de-trump/). Diplomatas brasileiros, segundo reportagem do colunista Igor Gadelha, classificaram o episódio como uma politização evidente do comércio internacional, ressaltando que a mudança de patamar tarifário coincidiu com uma manifestação pública do próprio presidente americano nas redes sociais (Brasil 247, 2026, disponível em https://www.brasil247.com/brasil/itamaraty-ve-politizacao-evidente-em-novo-tarifaco-dos-eua/).

A Suprema Corte americana, mais tarde, derrubou a tarifa geral de 50%. Vitória de Pirro. Porque, enquanto o tribunal comemorava a vitória da institucionalidade sobre o unilateralismo, o escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos já preparava a segunda cartada, agora blindada juridicamente pela Seção 301, mirando produtos específicos e poupando aqueles considerados estratégicos para a economia americana (Tax Group, 2026). O aço e o alumínio brasileiros, aliás, seguem sob sobretaxa de 50%, intocados por qualquer decisão judicial (Tax Group, 2026). A engenhosidade regulatória americana, digamos, é digna de aplausos irônicos: perdeu na Corte, venceu na letra miúda.

Reportagem da Bloomberg já antecipava, ainda em julho de 2025, que o governo americano preparava nova base legal justamente porque o caso brasileiro era estruturalmente distinto de outros países tarifados. Ao contrário da maioria das nações que mantêm superávit comercial com os Estados Unidos, o Brasil opera historicamente em déficit com o parceiro americano, o que tornava a narrativa da reciprocidade comercial, usada para justificar tarifas em outros países, praticamente inaplicável ao caso brasileiro (Bloomberg, 2025, disponível em https://www.bloomberg.com/news/articles/2025-07-25/eua-preparam-nova-base-legal-para-tarifa-de-trump-contra-brasil). Isto é: a régua nunca foi comercial. Foi sempre política, e o Brasil, ingenuamente ou nem tanto, insistiu em jogar xadrez comercial numa mesa onde o outro jogador já havia decidido trocar o tabuleiro por uma arena.

Análise publicada pela JOTA, ainda em 2025, já alertava que a judicialização do tarifaço reduziria o poder de barganha americano nas negociações, abrindo espaço para que outros países, inclusive o Brasil, ganhassem tempo diante da batalha jurídica em curso nos tribunais dos Estados Unidos (JOTA, 2025, disponível em https://tagteam.harvard.edu/hub_feeds/3884/feed_items/13876566/content). O tempo, no entanto, é o único recurso que a governança corporativa brasileira sistematicamente recusa administrar com seriedade. Ganhamos meses de fôlego jurídico e usamos boa parte deles para debater semântica diplomática em vez de redesenhar cadeias de suprimento, hedges cambiais e matrizes de risco setorial.

E aqui mora a provocação que pretendo deixar registrada, não como lamento, mas como convite à reflexão de quem ainda acredita que governança é item de compliance e não instrumento de sobrevivência estratégica.

Nenhuma empresa séria deveria estar surpresa. O aviso já estava dado desde abril de 2025. Havia investigação sob a Seção 301 aberta desde 15 de julho daquele ano. Havia reuniões de consulta governamental em Washington, com delegação brasileira de alto nível, ocorridas em abril de 2026, três meses antes da tarifa entrar em vigor (CartaCapital, 2026). Havia, portanto, tempo de sobra para qualquer conselho de administração minimamente competente reorganizar sua exposição ao mercado americano, diversificar destinos de exportação e reprecificar contratos de longo prazo. O que faltou não foi informação. Faltou governança. E quando falta governança, sobra desculpa.

É curioso observar como tantas lideranças, em tantos setores, ainda tratam governança como um departamento e não como uma postura existencial da organização. Governança não é a ata da reunião trimestral do conselho, tampouco o manual de conduta empoeirado na intranet corporativa. Governança é a capacidade de antecipar cenários hostis, modelar impactos antes que eles se materializem em balanço e agir com disciplina quando o ambiente externo se recusa a cooperar. É exatamente o que o duplo tarifaço expôs, com a delicadeza de um bisturi cego: organizações que confundiram estabilidade regulatória com garantia perpétua, e planejamento estratégico com wishful thinking travestido de powerpoint.

Chego então ao ponto que julgo mais relevante para quem lidera hoje, em qualquer setor exposto ao comércio internacional. A inteligência artificial, tão celebrada em painéis e tão maltratada em implementações reais, tem um papel claro nesse cenário, e ele não é o de heroína messiânica que resolve sozinha o que a liderança humana se recusou a resolver. A IA é complemento. Nunca substituto. Ela pode monitorar em tempo real alterações regulatórias em dezenas de jurisdições simultaneamente, simular cenários tarifários com centenas de variáveis cruzadas, alertar sobre padrões de risco geopolítico que escapam ao radar humano cansado de reuniões improdutivas. Mas nenhum algoritmo assina a decisão de reestruturar uma cadeia produtiva. Nenhum modelo de linguagem tem coragem, e coragem, quer se goste ou não, ainda é um atributo exclusivamente humano.

A garra que uma crise tarifária exige de uma organização não vem de um servidor em nuvem. Vem de gente disposta a questionar o próprio conforto, a rever contratos assinados em outro contexto geopolítico, a se comprometer com decisões impopulares no curto prazo em nome da sobrevivência no longo prazo. A dedicação que separa empresas que atravessam turbulências regulatórias daquelas que naufragam nelas não é um recurso computacional. É compromisso, no sentido mais antigo e mais exigente da palavra: aquele que se sustenta quando ninguém está olhando e quando o resultado trimestral não recompensa imediatamente o esforço.

Uso a inteligência artificial todos os dias no meu trabalho, na arquitetura das plataformas que desenvolvo, na leitura de cenários regulatórios, na modelagem de riscos organizacionais. E direi, sem falsa modéstia nem falso pudor, que ela amplia minha capacidade analítica de forma que seria irresponsável ignorar. Mas jamais decide por mim o que fazer com o que ela revela. Essa é uma distinção que muita gente, encantada pela novidade tecnológica, insiste em não fazer, e o resultado dessa confusão é sempre o mesmo: organizações tecnologicamente sofisticadas e estrategicamente vazias, capazes de gerar relatórios impecáveis sobre problemas que nunca resolvem.

O duplo tarifaço, ironicamente, presta um serviço público involuntário. Ele expõe, com crueldade quase didática, quais organizações brasileiras trataram governança como enfeite institucional e quais a trataram como espinha dorsal. Expõe também a fragilidade de um discurso diplomático que insiste em classificar como surpresa aquilo que a própria diplomacia já vinha documentando, em notas oficiais e reuniões de consulta, havia mais de um ano. Não há vilão único nessa história, por mais tentador que seja simplificar a narrativa. Há, isso sim, um sistema inteiro, público e privado, que confundiu previsibilidade regulatória com direito adquirido.

Ao leitor que chegou até aqui esperando um texto de conforto, ofereço o oposto: um convite ao desconforto produtivo. Questione se sua organização trata cenários geopolíticos como exercício de sala de aula ou como insumo real de decisão. Questione se seu conselho debate risco tarifário com a mesma seriedade com que debate remuneração executiva. Questione, sobretudo, se você está usando inteligência artificial para complementar julgamento humano ou para terceirizar a responsabilidade de pensar. Porque nenhuma tecnologia, por mais avançada, substitui a coragem de assumir compromissos difíceis antes que a crise os torne inevitáveis.

O Itamaraty seguirá negociando, como deve fazer, defendendo a legitimidade das políticas brasileiras questionadas pela investigação americana (CartaCapital, 2026). Isso é papel do Estado. Mas nenhuma vitória diplomática, por mais retumbante que venha a ser, substitui a responsabilidade que cabe exclusivamente às organizações: a de se preparar, com antecedência e com rigor, para um mundo em que a estabilidade comercial deixou de ser premissa e passou a ser exceção. Quem entendeu isso a tempo já reorganizou sua exposição ao risco. Quem ainda debate se isso é urgente, já perdeu tempo demais.

A governança que realmente importa não é aquela que se manifesta em relatórios de sustentabilidade bem diagramados. É aquela que se manifesta em decisões tomadas sob pressão, com dados incompletos, prazos curtos e consequências reais. É aquela que combina disciplina analítica, apoiada por tecnologia, com determinação humana, sustentada por compromisso genuíno. O duplo tarifaço não é apenas um capítulo de política comercial entre dois países. É um teste de caráter institucional que muitas organizações brasileiras, infelizmente, ainda estão reprovando em tempo real.

Que cada liderança tire dessa história a lição que lhe cabe. E que, da próxima vez que um tarifaço, uma pandemia, uma ruptura tecnológica ou qualquer outro cisne que insista em se disfarçar de imprevisível bater à porta, a resposta não seja surpresa, mas prontidão. Essa é a única forma legítima de transformar turbulência externa em vantagem competitiva duradoura. E essa prontidão, garanto, não se compra em nenhuma licença de software. Constrói se, dia após dia, com garra, com dedicação e com a coragem de olhar no espelho antes que o espelho seja quebrado por terceiros.

Referências

  1. Tax Group Intelligence. Tarifaço de Trump: EUA confirmam novas tarifas de 25% e 12,5% para o Brasil. 2026. Disponível em: https://www.taxgroup.com.br/intelligence/tarifaco-de-trump-o-que-esta-em-jogo-entre-brasil-e-eua/
  2. CartaCapital. Leia na íntegra a resposta do Itamaraty ao novo tarifaço de Trump. 2026. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/economia/leia-na-integra-a-resposta-do-itamaraty-ao-novo-tarifaco-de-trump/
  3. Brasil 247. Itamaraty vê politização evidente em novo tarifaço dos EUA. 2026. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/itamaraty-ve-politizacao-evidente-em-novo-tarifaco-dos-eua/
  4. Bloomberg. EUA preparam nova base legal para tarifa de Trump contra Brasil. 2025. Disponível em: https://www.bloomberg.com/news/articles/2025-07-25/eua-preparam-nova-base-legal-para-tarifa-de-trump-contra-brasil
  5. JOTA. Judicialização do tarifaço reduz poder de barganha dos EUA em negociações comerciais. 2025. Disponível em: https://tagteam.harvard.edu/hub_feeds/3884/feed_items/13876566/content