Há uma cena que se repete todos os dias nos aeroportos brasileiros e que ninguém parou para filmar com a atenção que merece. Médicos, engenheiros, pesquisadores e professores caminham rumo ao portão de embarque carregando malas e, junto com elas, algo muito mais pesado: o diploma de um país que investiu neles e não conseguiu, ou não quis, retê-los.
Enquanto isso, na rede pendurada entre dois pilares de promessas, o Brasil dorme tranquilo. Caipirinha na mão, óculos escuros, sorriso largo. "Relaxa, uma hora esse futuro chega... já já." A frase é cômica até lembrarmos que essa mesma frase é repetida há décadas, em décadas diferentes, por gerações diferentes de dirigentes diferentes, sempre com o mesmo tom de quem não tem pressa porque não é ele quem vai pagar a conta.
Os números não deixam espaço para otimismo barato. Investimos 5,6% do PIB em educação, um percentual respeitável no papel, mas que se transforma em resultados que nos colocam entre os últimos de 41 países avaliados pela OCDE. No PISA 2022, mais da metade dos estudantes apresenta desempenho baixo em ciências, e a leitura segue um caminho parecido. Não é falta de dinheiro investido. É a pergunta incômoda que ninguém quer fazer: para onde vai esse dinheiro e por que o retorno é tão desproporcional ao esforço?
Atrás da rede, uma pilha de livros sustenta o peso do sono nacional: burocracia, corrupção, ineficiência, interesses políticos, gestão que nunca presta contas, promessas sem prazo de validade. Cada um desses livros é, na prática, um tijolo na parede que separa o cidadão comum de um futuro que ele já pagou através de impostos, mas que talvez nunca chegue a usar.
Na sala de aula, crianças entediadas escrevem em cadernos sob um quadro que resume a lógica perversa do sistema: menos aprendizado, menos escolhas, menos futuro. Elas ainda não sabem, mas talvez sejam as próximas a fazer fila no aeroporto, vinte anos depois, carregando a mesma mala que seus professores carregam hoje.
A placa não deixa dúvidas: "Chegada do futuro - adiado novamente." E o aviso final da charge é o mais cortante de todos, porque desmonta a narrativa confortável que tentamos vender para nós mesmos: não é fuga de cérebros. É excesso de barreiras.
Não existe mistério algum em por que pessoas qualificadas vão embora. Existe, sim, um país inteiro que insiste em tratar sintomas enquanto ignora a doença, que celebra slogans enquanto exporta talento, que dorme embalado por discursos enquanto seus melhores filhos compram passagem só de ida.
A pergunta que fica não é quando o futuro vai chegar. É: quando vamos parar de empurrá-lo para depois?
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