Há um tipo específico de coragem que confundimos, com frequência perigosa, com competência. É a coragem de anunciar antes de construir, de aplaudir antes de auditar, de vestir a fantasia mais cara do bloco e desfilar na avenida na certeza confortável de que ninguém vai puxar o tecido para ver o que está costurado por dentro. Na semana passada, a cidade do Rio de Janeiro ofereceu ao país uma aula magistral sobre essa coragem. E sobre o preço dela.
No dia 12 de junho, a IplanRio, empresa pública de tecnologia da prefeitura carioca, anunciou ao mundo o Rio 3.5 Open, modelo de inteligência artificial de 397 bilhões de parâmetros, apresentado como conquista de soberania tecnológica municipal. O feito foi celebrado nas redes oficiais como prova de que inovação em IA não é monopólio do Vale do Silício nem de Pequim. O custo informado foi de R$ 500 mil, cifra apresentada como trinta vezes mais barata que uma solução proprietária equivalente, segundo apurou a Exame. Os números de desempenho divulgados eram, à primeira vista, de tirar o fôlego: superioridade sobre o Qwen 3.7 Plus em benchmarks de programação e raciocínio, aproximação dos resultados do DeepSeek, e um discurso construído sobre redução de dependência de plataformas privadas e proteção de dados sensíveis dos cidadãos sob a LGPD.
Durou, ao que tudo indica, pouco menos de quarenta e oito horas.
Como o modelo foi publicado em código aberto no Hugging Face, qualquer pesquisador com paciência e uma GPU decente pôde fazer o que toda promessa grandiosa deveria temer: testar. E o teste foi devastador em sua simplicidade. Bastou remover os system prompts, as instruções internas que obrigavam o modelo a se apresentar como Rio, para que ele revelasse, sem cerimônia, sua identidade real. Perguntado sobre quem era, o Rio 3.5 Open respondia, com naturalidade desconcertante, que era o Nex, da Nex AGI, conforme detalhou o Tecnoblog. A fantasia trazia a etiqueta visível por dentro do tecido.
A segunda camada da investigação foi ainda mais reveladora. Pesquisadores abriram os pesos do modelo, camada por camada, e encontraram uma colinearidade de 0,99 com uma combinação fixa e precisa de 60% do modelo Nex N2 Pro e 40% do Qwen3.5 397B, replicada de forma idêntica em todas as camadas analisadas, como documentou a Rapadura Tech. Estatisticamente, esse padrão é incompatível com qualquer processo real de treinamento. Treinamento gera ruído, variação, imperfeição. O que existia ali era aritmética pura, uma média ponderada travestida de inovação de fronteira.
A prefeitura havia afirmado publicamente que o modelo passara por uma técnica chamada On Policy Distillation, processo em que um sistema aprende a imitar respostas de outro modelo mais avançado, deixando, naturalmente, rastros de metodologia, avaliação e dados de treino. Nada disso apareceu. O que foi publicado, a própria IplanRio reconheceu depois, conforme registrou o TabNews, era apenas a mistura matemática bruta dos dois modelos, sem qualquer refinamento posterior. A justificativa oficial recaiu sobre uma figura clássica da administração pública brasileira: o erro humano no envio do arquivo. Não foi o modelo final que subiu ao ar, garantiu o órgão. Foi uma versão intermediária, enviada por engano.
Convido o leitor a sentar com essa frase por um instante. Um arquivo de quase 807 gigabytes, publicado oficialmente em nome de um ente público, sob aplausos do próprio gabinete, teria sido fruto de um clique errado. A explicação tem a elegância de uma desculpa de criança flagrada com a mão no pote de biscoitos, e a comunidade técnica internacional reagiu como seria de esperar. No ecossistema de modelos abertos já existe até nome para a prática: frontier washing, a arte de apresentar como avanço competitivo aquilo que é, na essência, reorganização de pesos alheios sem o devido crédito.
Há ainda um detalhe que nenhum manual de relações institucionais ensina a evitar. No mesmo comunicado em que reconhecia o erro, o órgão reafirmava seu compromisso com a transparência e com o estrito respeito às normas da comunidade global de software livre, segundo a própria Exame relatou. Reafirmar compromisso com transparência minutos depois de explicar por que a transparência faltou é o tipo de ironia que nenhum roteirista de humor corporativo conseguiria escrever com mais precisão.
Aqui está o ponto que interessa a qualquer pessoa que decide, audita ou responde por resultados dentro de uma organização, pública ou privada. O fracasso do Rio 3.5 Open não foi um fracasso de inteligência artificial. A tecnologia funcionou exatamente como foi construída: um modelo combinado responde como os modelos que o compõem, isso não é falha, é física do sistema. O que falhou foi a governança. Faltou auditoria interna antes da publicação. Faltou rigor na validação dos próprios benchmarks, sequer confirmados por terceiros independentes antes do anúncio. Faltou, sobretudo, a coragem mais difícil de todas: admitir publicamente que ainda não se chegou lá, em vez de simular que já se chegou.
E é exatamente por isso que esse episódio carioca merece sair do noticiário de tecnologia e entrar na pauta de qualquer comitê executivo que hoje discute estratégia de inteligência artificial. Porque o Rio 3.5 Open não é exceção, é espelho. Quantas iniciativas de IA dentro de empresas brasileiras são, no fundo, a mesma costura apressada, um sistema licenciado de terceiros com a logomarca da casa por cima, vendido internamente como diferencial proprietário? Quantos comitês de inovação aplaudem entregas que, se tivessem os system prompts removidos, confessariam imediatamente de onde realmente vieram? Quanta soberania tecnológica de sala de reunião não passa de fantasia alugada para o desfile do board, sem nenhuma estrutura de governança por trás capaz de sustentar o enredo até a manhã seguinte?
A inteligência artificial, ironicamente, não tolera essa encenação por muito tempo. Diferente do marketing, do discurso institucional e da nota oficial, o peso de um modelo não mente, ele apenas espera alguém com curiosidade suficiente para perguntar a pergunta certa sem a roupa de cerimônia. Essa é, talvez, a maior lição prática do caso: tecnologia aberta é, antes de tudo, um mecanismo de prestação de contas. Ela amplia a verdade de quem a constrói, para o bem e para o mal. Organizações com governança real, com processos de auditoria, com compromisso genuíno de entrega, encontram na IA um acelerador honesto de resultados honestos. Organizações que tratam IA como adereço de relações públicas encontram, mais cedo do que gostariam, o próprio Hugging Face particular, o lugar onde a costura aparece.
Por isso insisto, há anos, num ponto que incomoda quem prefere atalhos: inteligência artificial não substitui comprometimento, garra nem dedicação. Ela os revela com nitidez impiedosa. Um time disciplinado, que audita o próprio trabalho, que documenta metodologia, que aceita o desconforto de validar resultados antes de comemorar a vitória, usa IA para multiplicar uma base sólida. Um time que terceiriza a responsabilidade junto com o código, que confunde velocidade de anúncio com qualidade de entrega, usa a mesma tecnologia para multiplicar a própria fragilidade, em escala e com testemunhas.
O caso do Rio 3.5 Open vai esfriar nos próximos dias, como todo escândalo técnico esfria quando a próxima novidade chega. Mas a pergunta que ele deixa não deveria esfriar junto. Se alguém removesse hoje os system prompts institucionais da sua organização, as desculpas prontas, os relatórios bonitos, os slides de inovação, o que apareceria por baixo? Um modelo treinado com rigor, dados próprios e responsabilidade real, ou um merge bem vestido, esperando educadamente que ninguém pergunte de onde ele realmente veio?
A resposta honesta a essa pergunta vale mais do que qualquer parâmetro, qualquer benchmark e qualquer nota de esclarecimento publicada discretamente num domingo à noite.
Fontes consultadas
Tecnoblog. Rio lança modelo de IA, sofre críticas e é desmascarado em horas. Disponível em: https://tecnoblog.net/noticias/rio-lanca-modelo-de-ia-sofre-criticas-e-e-desmascarada-em-horas/
TabNews. Prefeitura do Rio de Janeiro é criticada após lançamento de modelo próprio de IA. Disponível em: https://www.tabnews.com.br/NewsletterOficial/prefeitura-do-rio-de-janeiro-e-criticada-apos-lancamento-de-modelo-proprio-de-ia
Exame. Prefeitura do Rio lança IA própria e diz superar modelos populares em desempenho. Disponível em: https://exame.com/inteligencia-artificial/prefeitura-do-rio-lanca-ia-propria-e-supera-outros-modelos-em-analises-de-desempenho/
Rapadura Tech. Rio 3.5 Open: a IA do Rio que era merge de Nex e Qwen. Disponível em: https://rapaduratech.com.br/rio-3-5-open-merge-prefeitura/
Hugging Face. Página oficial do modelo Rio 3.5 Open 397B. Disponível em: https://huggingface.co/prefeitura-rio/Rio-3.5-Open-397B
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