Há uma cena no documentário Together: Treble Winners, da Netflix, que me perturbou de um jeito que poucos conteúdos corporativos conseguem. Não foi um Ted Talk cuidadosamente roteirizado. Não foi um keynote com slides de 4K e trilha sonora dramática. Foi um vestiário. Cheiro de suor. Silêncio pesado. E Pep Guardiola, um dos maiores treinadores da história do futebol, despedaçando o ego coletivo do Manchester City com uma frase que qualquer executivo deveria tatuada na parede do escritório:
"Eu quero meus guerreiros!"
A cena está disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=LhxIDB7XL4s e https://www.netflix.com/watch/81733245?trackId=284616272
O episódio 3 do documentário mostra Guardiola após uma atuação abaixo do esperado, antes de um clássico contra o Manchester United no Old Trafford. Ele não grita em espanhol. Não usa PowerPoint. Ele usa a linguagem mais brutal de todas: a verdade nua, sem anestesia.
E enquanto assistia àquele monólogo visceral, não consegui parar de pensar no ambiente corporativo brasileiro. Nos executivos que frequentam eventos de inovação com crachás de lanyard premium. Nas empresas que compram ferramentas de inteligência artificial como quem compra enfeite de Natal. Nos líderes que falam em "transformação digital" enquanto suas equipes continuam operando com a mesma mentalidade de 2005 — só que agora com dashboard.
Este artigo é inconfortável de propósito. Se você chegou até aqui esperando uma lista de "5 dicas para ser mais produtivo com IA", peço que feche a aba. Isso não é para você. Não ainda.
O Vestiário que Ninguém Quer Entrar
Guardiola pergunta ao time: "Vocês acham normal o que fizemos hoje por este clube?"
Repita essa pergunta em voz alta para si mesmo, substituindo "clube" pelo nome da sua empresa, do seu projeto, da sua carreira.
Você acha normal o que você faz todos os dias?
Não estou perguntando se você é eficiente. Não estou perguntando se você bate metas ou se o seu LinkedIn tem 12.000 seguidores e um badge de "Top Voice". Estou perguntando se o que você entrega é compatível com o que você poderia entregar. Se existe um abismo entre a sua capacidade instalada e o que de fato sai da sua operação todos os dias.
Em 2023, a McKinsey publicou um relatório chamado "The State of Organizations" (https://www.mckinsey.com/capabilities/people-and-organizational-performance/our-insights/the-state-of-organizations-2023) que identificou que apenas 25% das transformações organizacionais atingem seus objetivos originais. Três em cada quatro falham. Não por falta de tecnologia. Não por falta de budget. Por falta de comprometimento real, de cima para baixo.
E sabe o que é mais irônico? A maioria dessas organizações que falham contratou consultoria. Comprou ferramenta. Fez workshop. Colocou o termo "agile" no organograma. E mesmo assim, fracassou.
Por quê? Porque comprometimento não se terceiriza.
Linguagem Corporal Organizacional
Guardiola fala algo que vai além do futebol: "Como você encara a vida, como você encara o jogo... isso é linguagem corporal."
Existe uma linguagem corporal nas organizações que nenhum relatório de RH consegue capturar. É o profissional que chega na reunião com o laptop aberto, respondendo e-mail enquanto finge prestar atenção. É o gestor que delega a tarefa difícil sempre para o mesmo subordinado porque sabe que vai ser feita. É o board que aprova o projeto de IA na segunda-feira e esquece no orçamento na quinta.
A linguagem corporal organizacional revela o que os valores na parede escondem.
Daniel Goleman, em seu clássico "Emotional Intelligence" (https://www.penguinrandomhouse.com/books/69105/emotional-intelligence-by-daniel-goleman/), demonstrou que líderes eficazes dedicam mais tempo a perceber o estado emocional das equipes do que ao controle de métricas. Não porque métricas não importam — importam imensamente. Mas porque métricas são lagging indicators: elas te mostram onde você estava, não onde você está.
O que te mostra onde você está é exatamente aquilo que Guardiola chama de linguagem corporal. A postura com que cada pessoa entra pela manhã. A velocidade com que um erro é assumido ou escondido. O silêncio na sala quando o CEO faz uma pergunta desconfortável.
Quantas empresas brasileiras você conhece que cultivam um ambiente onde o silêncio não seja a resposta padrão para perguntas difíceis?
Pense bem antes de responder.
Oitenta Minutos para Jogar
Uma das passagens mais poderosas da fala de Guardiola é esta: "Você tem oitenta minutos para jogar!"
É uma reprimenda sobre reação. Sobre não se render ao contexto desfavorável. Um gol sofrido não é o jogo. Dois gols sofridos ainda não são o jogo. O jogo é tudo aquilo que você faz com o que lhe resta.
No ambiente corporativo, a maioria das pessoas não perde o jogo nos grandes momentos. Perde nos pequenos. Na segunda semana de um projeto ambicioso, quando o entusiasmo natural esfriou e o trabalho pesado ainda está pela frente. No terceiro mês de uma implementação de software, quando os problemas técnicos aparecem e o time começa a questionar se "valeu a pena". Na reunião de revisão de resultados onde ninguém quer ser o portador de más notícias.
Angela Duckworth, pesquisadora da Universidade da Pensilvânia e autora de "Grit: The Power of Passion and Perseverance" (https://angeladuckworth.com/grit-book/), passou mais de uma década estudando o que diferencia pessoas de alto desempenho. A conclusão foi desconcertante para quem acredita em talento como determinismo: o principal preditor de sucesso de longo prazo não é QI, não é talento natural, não é QE. É grit. Perseverança apaixonada. A disposição de continuar mesmo quando o segundo gol já foi marcado.
E o que o ambiente corporativo moderno frequentemente faz com o grit? Sufoca. Com reuniões desnecessárias. Com processos de aprovação kafkianos. Com cultura de microgerenciamento disfarçada de "alinhamento estratégico".
Guardiola não gerencia. Ele lidera. Existe uma diferença abissal entre os dois — e a maioria das organizações confunde os conceitos há décadas.
A Ilusão da Tecnologia como Substituta do Caráter
Agora chegamos ao ponto onde muitos vão se incomodar. Bom. Esse era o objetivo.
Nos últimos três anos, o mercado brasileiro foi varrido por uma onda de entusiasmo com inteligência artificial que, vista de perto, tem mais cara de febre do que de transformação estrutural. Empresas compram assinaturas de ferramentas que nunca são usadas em mais de 20% de sua capacidade. Gestores assistem a demos deslumbrantes e voltam para a reunião semanal com os mesmos processos de 2018, só que agora com um chatbot no canto.
O relatório "AI Adoption in the Enterprise" da Stanford HAI (https://hai.stanford.edu/ai-index-report) de 2024 aponta que a maioria das organizações que afirmam ter "adotado IA" ainda opera com casos de uso extremamente superficiais: geração de texto, sumarização de documentos, respostas automáticas. O potencial transformacional da tecnologia, que reside na integração profunda com processos de decisão, modelagem preditiva e governança de dados, permanece amplamente inexplorado.
Por que isso acontece?
Porque tecnologia sem comprometimento é enfeite. Inteligência Artificial sem inteligência humana comprometida é automação de mediocridade.
Guardiola não precisaria de IA para identificar o problema do seu time naquele vestiário. Ele precisava de algo muito mais raro: clareza moral e coragem para nomeá-lo em voz alta.
Mas aqui vai o ponto que muitos perdem na dicotomia equivocada entre "humano versus máquina": a IA, quando bem governada, quando incorporada a processos com intencionalidade estratégica, quando alimentada por dados de qualidade e operada por pessoas genuinamente comprometidas com os resultados, não substitui o caráter. Ela amplifica o caráter. Da mesma forma que um grande instrumento nas mãos de um músico mediano produz som mediano, uma grande plataforma de IA nas mãos de uma equipe sem garra produz automatização de resultados medíocres em escala industrial.
E isso, convenhamos, é assustador.
Governança: A Palavra que Todo Mundo Usa e Quase Ninguém Pratica
Existe um conceito que circula nos corredores corporativos com uma frequência inversamente proporcional à sua compreensão real: governança. Governança de dados. Governança de IA. Governança corporativa. O termo virou o novo "sustentabilidade" dos anos 2000 — todo mundo coloca no relatório anual, poucos sabem o que significa na segunda-feira de manhã.
Governança não é burocracia. Governança é a formalização do comprometimento.
Quando Guardiola diz "Seja humilde, seja ambicioso", ele está, de certa forma, articulando os dois pilares de qualquer estrutura sólida de governança. Humildade para reconhecer que o sistema precisa de regras, revisão e accountability. Ambição para que essas regras não se tornem um fim em si mesmas, mas um meio para resultados extraordinários.
O MIT Sloan Management Review publicou em 2023 um estudo revelador sobre governança de IA (https://sloanreview.mit.edu/article/the-case-for-ai-governance/) que demonstrou algo perturbador: organizações com estruturas formais de governança de IA entregam, em média, 2,3 vezes mais valor de negócio com suas iniciativas de IA do que aquelas que operam sem tais estruturas. Não porque as regras criam valor. Porque as regras criam responsabilidade. E responsabilidade, quando internalizada genuinamente, gera comprometimento.
Mas governança sem comprometimento real das lideranças é teatro. É a política de proteção de dados que ninguém leu. É o comitê de ética em IA que se reúne uma vez por trimestre para validar o que já foi decidido. É o framework de segurança da informação que existe no PDF e não existe na prática cotidiana.
A governança verdadeira começa onde o conforto termina. Quando o CEO para a reunião para questionar se aquela decisão de dados está alinhada com os princípios declarados da empresa. Quando o líder de produto rejeita uma feature que aumentaria o engajamento mas comprometeria a privacidade do usuário. Quando a empresa decide não usar um modelo de IA que não consegue explicar suas decisões, mesmo que esse modelo entregue resultados ligeiramente superiores no curto prazo.
Guardiola parou o time antes de uma das partidas mais importantes da temporada para falar sobre caráter. Isso é governança. Essa é a coragem que a gestão moderna raramente exerce.
Dez Anos Esperando para Nos Matar
"Eles estão há dez anos esperando para nos matar. Dez anos. E você está preparado? Você está bem preparado?"
Há uma forma particularmente elegante de se preparar mal para a competição: achar que você já está preparado.
O mercado brasileiro de tecnologia e negócios tem um problema crônico de auto-complacência competitiva. Empresas que conquistaram liderança em seus segmentos na primeira década dos anos 2000 ainda operam com a arrogância daquele período, sem perceber que o ecossistema ao redor se transformou completamente. O concorrente que você desprezava há três anos agora tem um produto melhor, uma estrutura de custo mais eficiente e, muito provavelmente, está usando inteligência artificial de um modo que a sua empresa ainda está discutindo em reunião de planejamento estratégico.
Clayton Christensen, em "The Innovator's Dilemma" (https://www.hbs.edu/faculty/Pages/item.aspx?num=46), identificou o mecanismo exato pelo qual empresas líderes são derrubadas por entrantes menores: não por incompetência técnica, mas por excesso de compromisso com o que as tornou grandes. A força vira fraqueza. O sucesso passado se torna o obstáculo para o sucesso futuro.
O United ficou dez anos esperando. Mas o United do Guardiola não é apenas o Manchester United. É o mercado. É a concorrência que você não vê porque está muito ocupado admirando suas próprias métricas. É o startup que ainda não tem nem CNPJ mas que já está resolvendo o problema que você fingiu resolver há cinco anos. É o modelo de linguagem que está sendo treinado agora, neste exato momento, que vai tornar obsoleto o processo que você orgulhosamente automatizou no ano passado.
Você está preparado?
Não estou perguntando se você tem um roadmap de IA. Estou perguntando se você tem fome.
A Fome que o Técnico Reforça
Guardiola encerra com diagnóstico cirúrgico: o que falta não é técnica. Não é tática. É fome.
Mas aqui mora uma nuance que a maioria das leituras superficiais desse trecho perde: Guardiola é, simultaneamente, um dos treinadores mais técnicos e mais táticos da história do futebol. Ele não está dizendo que técnica não importa. Ele está dizendo que sem a fome, a técnica é estéril.
A fome não substitui a competência. A fome é o que faz a competência trabalhar no seu limite máximo.
Isso tem implicações profundas para como pensamos no desenvolvimento de pessoas, na formação de times e, especialmente, no uso de inteligência artificial como alavanca estratégica.
Uma equipe com fome e sem ferramenta adequada vai entregar resultados abaixo do potencial. Mas uma equipe sem fome com a ferramenta mais sofisticada do mercado vai entregar mediocridade em escala. A IA, nesse contexto, não é o substituto da fome. Ela é o multiplicador da fome.
Pense em como os melhores atletas usam análise de dados no esporte moderno. O GPS vestível, o rastreamento de movimento, os modelos preditivos de lesão — toda essa tecnologia só gera valor porque existe, por trás dela, um atleta que quer genuinamente melhorar. Que usa o dado não como justificativa para o que já acreditava, mas como espelho honesto do que precisa mudar.
A Harvard Business Review publicou em 2023 uma análise sobre os diferenciadores de organizações que extraem valor real de suas iniciativas de IA (https://hbr.org/2023/01/how-to-build-an-ai-ready-culture). O fator número um? Cultura de aprendizado contínuo. Não tecnologia. Não orçamento. Cultura. A disposição coletiva de um time em ser perturbado pela evidência, em mudar de curso quando os dados apontam que o caminho atual está errado, em aprender em público mesmo que isso seja desconfortável.
Cultura de aprendizado contínuo é, em essência, a institucionalização da fome.
O Espelho que as Organizações Evitam
Existe uma razão pela qual o discurso de Guardiola é tão perturbador: ele não oferece desculpa.
Não foi o campo que estava ruim. Não foram os árbitros. Não foi o calendário congestionado. Não foram as lesões. Foi o time. Foram as escolhas. Foi a postura. Foi a fome que não estava lá.
As organizações modernas desenvolveram uma habilidade extraordinária de criar narrativas que as afastam do espelho. O mercado está difícil. A regulação não ajuda. Os talentos são caros. A concorrência desleal. O câmbio. A política. O clima econômico.
Todas essas coisas são reais. E nenhuma delas é o ponto.
O ponto é: dado tudo isso que está fora do seu controle, o que você está fazendo com o que está dentro? Com o tempo que você tem? Com as pessoas que você escolheu? Com as ferramentas que você contratou? Com a tecnologia que você disse que ia mudar o negócio?
O Fórum Econômico Mundial projeta, em seu Future of Jobs Report 2023 (https://www.weforum.org/reports/the-future-of-jobs-report-2023/), que até 2027 mais de 40% das competências centrais dos trabalhadores vão mudar. Não as ferramentas. As competências. O que você sabe fazer com profundidade hoje pode ser commoditizado amanhã por um modelo de linguagem que custa menos por mês do que um almoço corporativo.
Nesse cenário, o que permanece insubstituível?
A fome. A capacidade de se adaptar porque você quer genuinamente — não porque o mercado te forçou. A disposição de aprender algo novo não quando a empresa oferece o treinamento, mas quando você percebe que sem aquele conhecimento você está ficando para trás. A coragem de ser honesto em uma reunião de resultados quando todos estão dispostos a aceitar a narrativa mais confortável.
Guardiola não aceita. "Eu não aceito isso." Três palavras que definem a fronteira entre liderança e gestão.
IA como Complemento: A Arquitetura do Comprometimento Aumentado
Voltemos à inteligência artificial, agora com o contexto certo.
A narrativa que domina os corredores executivos é binária e equivocada: ou a IA vai substituir as pessoas, ou ela é exagerada e não vai mudar nada substancial. Essa dicotomia revela menos sobre o estado da tecnologia e mais sobre o estado do pensamento estratégico de quem a articula.
A realidade, como de costume, é mais complexa e mais interessante.
A IA, na sua forma mais poderosa e mais ética, funciona como um sistema de amplificação. Ela amplifica capacidades. Ela amplifica velocidade. Ela amplifica o alcance de decisões. Mas ela também amplifica falhas de caráter, vieses cognitivos e ausência de comprometimento.
Um profissional comprometido com a excelência que incorpora ferramentas de IA ao seu fluxo de trabalho não se torna um profissional preguiçoso com boa produtividade. Ele se torna um profissional extraordinário. Porque ele usa a ferramenta para eliminar o trabalho mecânico e se dedicar integralmente ao trabalho que requer julgamento, criatividade e relacionamento humano — os três pilares que a IA, no estágio atual e provavelmente por longa data, não consegue substituir com qualidade.
Por outro lado, um profissional que usa IA como substituta do esforço — para entregar o mínimo aceitável com menos trabalho — não está sendo mais eficiente. Está sendo mais acomodado. E a diferença entre os dois não aparece no curto prazo. Mas aparece. Sempre aparece.
Andrew Ng, um dos pesquisadores mais respeitados no campo de aprendizado de máquina e fundador do deeplearning.ai (https://www.deeplearning.ai/), articula essa distinção de forma precisa: IA não é uma estratégia de negócio. Ela é uma capacidade habilitadora que requer estratégia humana para gerar valor. A ferramenta sem a estratégia é gasto. A estratégia sem a ferramenta, no contexto atual, é handicap competitivo.
A questão, portanto, não é se a sua empresa vai usar IA. Essa decisão já foi tomada pelo mercado. A questão é se as pessoas que vão operar essa IA têm a fome necessária para extrair dela o máximo, ou se vão usá-la para justificar um nível inferior de entrega com uma narrativa superior de modernidade.
Pés no Chão, Olhos no Horizonte
"Com os pés no chão, todo mundo. Trabalhe mais, trabalhe melhor, seja humilde, seja ambicioso."
Raramente uma frase tão curta carrega tanta tensão produtiva. Pés no chão e olhos no horizonte. Humildade e ambição. Trabalhar mais e trabalhar melhor. Não são contradições. São pares dialéticos que definem o estado mental de quem opera no limite das próprias possibilidades.
O ambiente corporativo brasileiro tem um fetiche particular pela narrativa de crescimento sem sofrimento. Toda a indústria de conteúdo de produtividade e "mindset" que se desenvolveu nos últimos anos vende, em sua maioria, a mesma promessa: faça menos, produza mais, viva melhor. Há grãos de verdade nessa promessa. Há também uma quantidade industrial de ilusão.
A verdade que Guardiola articula naquele vestiário fétido é mais antiga do que qualquer framework de produtividade: resultados extraordinários exigem esforço extraordinário. Esforço extraordinário não é trabalhar 80 horas por semana — isso é apenas ineficiência romantizada. Esforço extraordinário é a disposição de fazer o que precisa ser feito, da forma que precisa ser feita, com a qualidade que o resultado merece, mesmo quando ninguém está olhando. Especialmente quando ninguém está olhando.
Cal Newport, em "Deep Work" (https://calnewport.com/books/deep-work/), documenta o colapso sistêmico da capacidade de concentração profunda nas organizações modernas. A fragmentação da atenção, multiplicada por ferramentas de comunicação que prometem conexão mas entregam interrupção, criou um paradoxo: nunca tivemos acesso a tantas informações e nunca fomos tão superficiais no que fazemos com elas.
Deep work — trabalho profundo, concentrado, sem interrupção — é exatamente o que Guardiola exige dos seus jogadores nos oitenta minutos de jogo. Não dispersão. Não apatia disfarçada de cansaço. Presença total. Atenção total. Comprometimento total com aquele momento, aquela tarefa, aquele objetivo.
E é exatamente isso que a integração bem feita de IA pode viabilizar: ao automatizar o trabalho raso — triagem de e-mails, compilação de relatórios, análise descritiva de dados — ela cria espaço para o trabalho profundo. Para o pensamento que realmente diferencia. Para a decisão que requer contexto, nuance e julgamento humano.
Mas esse espaço só tem valor se for preenchido com fome.
O Problema da Base Pronta
"Caso contrário... a base está pronta."
Essa frase, dita quase como sussurro, é a mais aterrorizante de todo o monólogo. Não é uma ameaça vazia. É uma observação de mercado.
Em qualquer organização de alta performance, há sempre mais pessoas querendo entrar do que posições disponíveis. A base está sempre pronta. A fila de pessoas com fome é infinita. O que é finito é o espaço para quem perdeu a fome mas ainda ocupa o espaço de quem a tem.
Esse princípio, transferido para o contexto corporativo e tecnológico, tem uma dimensão que vai além do emprego individual. Empresas inteiras podem ser substituídas. Modelos de negócio inteiros podem ser tornados obsoletos. A base — de concorrentes mais ágeis, mais focados, mais comprometidos com o problema do cliente — está sempre pronta para ocupar o espaço das organizações que perderam a fome.
O Japão nos ensinou isso nos anos 1980, quando derrubou a hegemonia industrial americana não com recursos superiores, mas com disciplina e comprometimento superiores. A Coreia do Sul nos ensinou isso nas últimas três décadas, construindo players globais de tecnologia a partir de economias em desenvolvimento com força de vontade institucionalizada. A China está nos ensinando agora, com uma velocidade de adoção e implementação de IA que faz o Ocidente parecer estar em outro fuso horário não só geográfico, mas cognitivo.
O relatório China's AI Development Report 2023 publicado pela China Academy of Information and Communications Technology (https://www.caict.ac.cn/) aponta que o país registrou mais de 40.000 patentes relacionadas a IA nos últimos cinco anos, superando os Estados Unidos em volume bruto. Não porque os engenheiros chineses são geneticamente superiores. Porque o ecossistema criou — com todas as suas contradições e problemas éticos que merecem debate separado — uma cultura de comprometimento com resultados em velocidade e escala que é difícil de ignorar.
A base está pronta. A questão é se você está com fome suficiente para permanecer relevante nela.
O Indivíduo como Unidade Estratégica Irredutível
Há uma patologia organizacional que se instalou silenciosamente nos últimos vinte anos, nutrida por décadas de teorias de gestão que privilegiaram o coletivo ao ponto de dissolver o individual: a crença de que a responsabilidade diluída em processos é mais confiável do que a responsabilidade concentrada em pessoas.
O resultado prático é que as organizações modernas construíram arquiteturas sofisticadas para compartilhar responsabilidade sem que ninguém, de fato, seja responsável. Comitês decidem, e quando a decisão é ruim, o comitê foi o culpado. O comitê, como se sabe, não tem endereço, não tem CPF, e definitivamente não vai ser cobrado na revisão semestral de performance.
Guardiola não fala para o coletivo abstrato. Ele vai de olho em olho. "Você acha normal? Você está preparado? Você está com fome?" O pronome é singular. A responsabilidade é individual. O jogo é coletivo, mas a fome é de cada um.
Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto e fundador da logoterapia, em sua obra fundamental "Em Busca de Sentido" (https://www.amazon.com.br/busca-sentido-Viktor-E-Frankl/dp/8532606695), argumenta que a liberdade humana última é a liberdade de escolher a própria atitude diante de qualquer circunstância. Não a liberdade de controlar o ambiente. A liberdade de escolher como se posicionar diante dele.
Essa liberdade, aplicada ao contexto corporativo e tecnológico, é o que separa o profissional que usa a adversidade como desculpa do profissional que a usa como combustível. E é precisamente essa liberdade que nenhum modelo de IA vai replicar, porque ela não é informacional. É existencial.
Quando Guardiola diz "Quer jogar? Você quer a bola? Vocês querem um ao outro, como um irmão?", ele está fazendo uma pergunta que toda organização deveria se fazer antes de implementar qualquer iniciativa de IA: as pessoas que vão operar isso realmente querem? Não no sentido de conformidade. No sentido de desejo genuíno. De comprometimento voluntário que não precisa de política de uso obrigatório para se manifestar.
Porque comprometimento forçado produz conformidade. E conformidade, no contexto de transformação tecnológica, é praticamente indistinguível de resistência passiva. A pessoa usa a ferramenta quando é avaliada e não a usa quando não é. Aprende o mínimo para não ser cobrada. Executa o processo sem entender o princípio. E quando o sistema falha, levanta as mãos e diz que seguiu o protocolo.
O protocolo é o oposto da fome.
A fome vai além do protocolo. A fome questiona o protocolo quando ele deixa de fazer sentido. A fome propõe melhora. A fome encontra o caminho quando o mapa acabou.
Nesse sentido, a inteligência artificial bem governada pode ser pensada como um amplificador de protagonismo individual dentro de estruturas coletivas. Quando um profissional com fome tem acesso a ferramentas de IA que expandem suas capacidades analíticas, sua velocidade de pesquisa, sua habilidade de síntese e sua capacidade de simulação de cenários, ele não se torna mais dependente do sistema. Ele se torna mais capaz de influenciar o sistema. De tomar decisões melhor fundamentadas. De identificar oportunidades antes que virem consenso. De agir com a velocidade que o mercado atual exige sem perder a profundidade que o julgamento qualificado requer.
O Banco Interamericano de Desenvolvimento, em seu relatório "Skills of the Future" (https://publications.iadb.org/en/skills-future-how-latin-america-should-prepare-new-age-work), aponta que as competências que mais vão diferenciar profissionais latino-americanos na próxima década não são as técnicas, que têm prazo de validade cada vez menor. São as competências sociocognitivas: pensamento crítico, comunicação eficaz, criatividade aplicada e — ironicamente, num mundo de automação — autonomia e automotivação.
Autonomia e automotivação são, em essência, fome institucionalizada.
A questão que as organizações precisam responder honestamente é se os seus sistemas de gestão nutrem ou sufocam essas competências. Se o modelo de incentivo premia quem faz o certo ou quem faz o que parece certo para o avaliador. Se a cultura de feedback cria espaço para que o indivíduo receba a verdade com a mesma brutalidade carinhosa com que Guardiola a entrega no vestiário.
Porque sem esse espelho, a fome não tem como se recalibrar. E sem recalibração constante, a fome que existia vai sendo substituída, imperceptivelmente, pela satisfação prematura com resultados medianos.
Quando a Tecnologia Encontra o Caráter: Arquitetura do Alto Desempenho Aumentado
O conceito de "augmented intelligence" — inteligência aumentada — é mais preciso e menos ameaçador do que "artificial intelligence" para descrever o que acontece quando a tecnologia encontra o profissional certo.
Augmented intelligence não substitui o julgamento humano. Ela expande o espaço de possibilidades dentro do qual o julgamento humano opera. Ela elimina o ruído para que o sinal seja mais claro. Ela automatiza a coleta para que a análise seja mais profunda. Ela acelera a iteração para que o aprendizado seja mais rápido.
Mas tudo isso pressupõe que existe, do lado humano da equação, alguém com clareza sobre o que quer, comprometimento com o resultado e disposição de ser perturbado pela evidência quando ela contradiz a hipótese inicial.
Esses três elementos — clareza, comprometimento e abertura à perturbação — são o que Guardiola cultiva nos seus jogadores. E é o que qualquer líder que queira extrair valor real de iniciativas de IA precisa cultivar nas suas equipes antes de comprar qualquer plataforma, contratar qualquer consultoria ou aprovar qualquer roadmap.
O modelo que proponho, baseado nos princípios articulados ao longo deste texto e na experiência de implementação de sistemas de inteligência estratégica em organizações brasileiras, é simples na enunciação e exigente na execução:
Primeiro: audite a fome antes de auditar a tecnologia. Antes de mapear as ferramentas de IA disponíveis, mapeie o estado real de comprometimento da equipe que vai usá-las. Não com pesquisa de clima. Com conversas honestas, individuais, sem roteiro pré-aprovado pelo RH.
Segundo: defina o que sucesso significa antes de começar. Não métricas genéricas de "adoção". Resultados específicos de negócio que a iniciativa de IA precisa mover, com prazo e com nome de responsável.
Terceiro: construa governança que incomoda. Governança que não incomoda ninguém não está funcionando. Se o seu framework de ética em IA nunca gerou conflito, nunca freou uma decisão que parecia boa, nunca criou debate desconfortável sobre trade-offs — ele é decorativo, não funcional.
Quarto: celebre o aprendizado de erros mais do que os resultados esperados. O que diferencia organizações de alto desempenho não é a ausência de erro — é a velocidade e a honestidade com que os erros são reconhecidos, analisados e incorporados como aprendizado. A cultura que pune o erro pune a fome. A cultura que aprende com o erro alimenta a fome.
Quinto: exija protagonismo individual dentro do coletivo. Cada pessoa que opera tecnologia de IA na organização precisa entender o propósito do que faz, ter voz sobre como melhorá-lo e sentir responsabilidade pelo resultado. Não conformidade operacional. Protagonismo estratégico.
Esse não é um framework. É uma filosofia de gestão. E como toda filosofia de gestão, só funciona se a liderança que a propõe vive o que prega.
Guardiola passa mais tempo no campo de treinamento do que qualquer jogador do City. Ele não pede fome. Ele demonstra fome.
O Diagnóstico que Ninguém Pediu
Se você chegou até aqui, provavelmente uma de duas coisas aconteceu: ou você se reconheceu em algum ponto deste texto e está desconfortável com isso — o que é ótimo, porque desconforto é o primeiro sintoma de crescimento iminente — ou você leu pensando em outra pessoa, em outro departamento, em outro colega. O que é absolutamente humano e quase completamente inútil para fins práticos.
O discurso de Guardiola não foi para o técnico adversário. Foi para o time dele.
Este artigo não é para o concorrente da sua empresa. É para você.
O diagnóstico que quero propor não tem nada de sofisticado: o maior obstáculo entre onde você está e onde poderia estar não é o mercado, não é a tecnologia, não é a regulação, não é o financiamento. É a distância entre o seu potencial declarado e o seu comprometimento real.
E essa distância é medida todos os dias, em cada decisão pequena, em cada tarefa que você faz com 70% de atenção porque "é só isso mesmo", em cada reunião que você entra sem ter preparado o que deveria, em cada implementação de IA que virou projeto piloto eterno porque ninguém teve a coragem de escalar ou matar.
Jim Collins, em "Good to Great" (https://www.jimcollins.com/books/g-to-g.html), identificou que a diferença entre empresas boas e empresas extraordinárias raramente está na estratégia. Está na disciplina de execução. No comprometimento inabalável com os fundamentos. Na recusa de aceitar mediocridade como norma operacional.
Bom o suficiente não é bom o suficiente. Nunca foi.
O que Significa Estar com Fome no Contexto da IA
Permitam-me ser específico, porque generalidades são o refúgio dos que não querem ser cobrados.
Estar com fome no contexto da inteligência artificial e da transformação digital significa, concretamente:
Aprender sobre IA não porque a empresa mandou fazer o curso, mas porque você percebeu que sem essa compreensão está delegando decisões estratégicas para pessoas que entendem menos do negócio do que você, mas mais da tecnologia que está moldando o futuro dele.
Usar as ferramentas disponíveis no seu limite, não no seu conforto. O ChatGPT, o Claude, o Gemini — não são máquinas de fazer texto bonito. São sistemas com os quais você pode pensar em voz alta, testar hipóteses, analisar documentos complexos, estruturar raciocínios. Usá-los para formatar e-mail é o equivalente a usar um bisturi para abrir envelope.
Questionar os dados que alimentam as decisões de IA na sua organização. A maioria dos problemas de IA não começa na modelagem. Começa nos dados. Dados ruins, governança ruim de dados, produzem modelos que automatizam erros com consistência estatística admirável.
Exigir que as iniciativas de IA tenham donos com accountability real, não comitês que existem para diluir responsabilidade. Se ninguém pode ser responsabilizado pelo fracasso de uma iniciativa, ninguém está verdadeiramente comprometido com o sucesso dela.
Fazer as perguntas incômodas: Por que estamos implementando isso? Que problema resolve? Como vamos medir? Quem é responsável? O que acontece se não funcionar?
Estar com fome é, fundamentalmente, se recusar a aceitar a narrativa mais conveniente quando a evidência aponta para outra direção.
A Resposta que Você Não Vai Encontrar em Nenhum Framework
Pep Guardiola não precisou de framework. Não precisou de slides. Não precisou de consultoria externa para diagnosticar o problema do seu time.
Ele precisou de coragem para encarar o espelho e nomear o que via.
O Manchester City venceu o Treble naquela temporada. Campeonato Inglês, FA Cup e Champions League. A última conquista, em particular, foi um dos momentos mais dramáticos da história do futebol europeu. O vestiário que parecia desolado naquele momento se transformou em um time capaz de operar no absoluto limite das suas possibilidades.
Não porque o talento apareceu do nada. Porque a fome foi restaurada.
A inteligência artificial vai continuar evoluindo. Os modelos vão ficar mais capazes, mais rápidos, mais baratos. As ferramentas de governança vão se sofisticar. Os frameworks éticos vão se consolidar. O mercado vai seguir pressionando por adaptação.
Nada disso vai importar se a pessoa que opera essa tecnologia, que toma as decisões amparadas por ela, que lidera as equipes que a implementam, não tiver fome.
Fome de fazer bem feito. Fome de aprender o que ainda não sabe. Fome de ser honesto quando o resultado não está onde deveria. Fome de liderar pelo exemplo, não pelo cargo. Fome de, daqui a dez anos, olhar para trás e não precisar se desculpar pela negligência de hoje.
Você está com fome?
Responda para si mesmo. Não para mim. Não para o LinkedIn. Para você, às seis da manhã, quando ninguém está olhando e o trabalho importante está esperando.
Se a resposta for sim: a base está pronta, e você está na frente dela.
Se a resposta for não: não se preocupe. A fome pode ser recuperada. Mas ela não volta sozinha. E ela definitivamente não volta de palestra, post motivacional ou nova assinatura de SaaS.
Ela volta quando você para, entra no vestiário, fecha a porta e se permite ouvir a verdade.
Referências:
McKinsey & Company. The State of Organizations 2023. https://www.mckinsey.com/capabilities/people-and-organizational-performance/our-insights/the-state-of-organizations-2023
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Newport, C. Deep Work: Rules for Focused Success in a Distracted World. Grand Central Publishing, 2016. https://calnewport.com/books/deep-work/
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Netflix. Together: Treble Winners. Documentário oficial, Episódio 3. https://www.netflix.com | Clipe de referência: http://www.youtube.com/watch?v=LhxIDB7XL4s
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